Haviam passado duas semanas desde que Pedro recebera a notícia de que sua melhor amiga estava de mudança. Seu Amadeu havia conseguido uma oferta de emprego na cidade de Ouro Preto, cidade que Pedro nunca havia visitado e nem sabia em qual local do mapa estava localizada. Ele não entendia. Amanda havia sido sua companheira de anos e pensar na possibilidade de ficar durante um tempo indeterminado sem vê-la, o deixava sem vontade alguma de se levantar da cama dia após dia.
- Pedro eu não tenho escolha. Preciso ir.
Foi a ultima coisa que Pedro conseguiu entender após horas e horas de pura discussão dolorosa. Ela não tinha escolha, precisava ir embora junto com sua família. Ele sabia, e entendia. Mas estava inconformado. Pedro só conseguia pensar que ficaria sozinho com um vazio tremendo dentro de si. Sozinho. Porque odiava a quase todos. E os que não odiava, estavam mudando-se de cidade ou mortos.
Pedro lembrava-se de quando a conhecera. Botas em pleno verão e um sorvete de chocolate derretendo em sua mão pequena. Ele quis rir, mas não conseguiu. Doía. Mesmo que naquele momento estivessem juntos, mesmo que naquele momento pudesse declarar e gritar o que sentia. A dor que sentiu quando viu a ultima caixa ser colocada no porta-malas do carro, foi comparada a dor de um tiro seguida de cinco facadas no peito. Ele não chorou, mas queria. E como queria. Amanda continuava a falar sobre como se comunicariam via telefone e mensagens de texto, e ele queria implorar por silêncio e um beijo longo.
Quando o carro começou a se afastar, ela o olhava pelo vidro totalmente destruída por dentro. Tão destruída que ao chegar no fim da rua desceu do carro as pressas e correu em direção ao melhor amigo para dar um último abraço.
Amanda de olhos fechados, apoiada com o rosto ao ombro de Pedro, se lembrou do primeiro livro de conto de fadas que conseguira ler. Pedro ouvia a história sempre com muita atenção, pois gostava das expressões que o rosto dela fazia enquanto lia. Ela não sabia disso, e ele não pensara que desde aquela época o que sentira era amor. Mas naquele momento, Pedro não pensava em nada. Apenas se embriagava com o cheiro do cabelo da amiga e dentro de si gritava que a amava e que deveria tentar convencer os pais a deixarem morar com a avó. Mas isso seria egoísmo, ele pensou. Ela precisava dos pais assim como os pais precisavam dela. Assim como ele precisava.
Amanda se afastou, voltou ao carro, e desta vez não pediu ao pai que parasse o veículo. Com o rosto deitado no vidro, ela chorava. E Pedro apesar de não ter visto o choro, sentia a dor de Amanda na mesma intensidade. Ele não conseguia afastar a lembrança das botas em pleno verão e do sorvete derretendo nas mãos pequenas da amiga. A lembrança não foi embora nem quando ele saiu da entrada da casa, subiu as escadas e deitou-se em sua cama.
- Botas em pleno verão e um sorvete de chocolate derretendo – Pedro repetia em voz alta como se fosse um mantra e pensou, enquanto repetia sua memória, que se pudesse tirar uma fotografia daquela cena, está seria a fotografia mais linda do mundo. Porque nela tinha Amanda, botas em pleno verão e um sorvete de chocolate derretendo.
Pedro sentou-se e se negou a pensar mais uma vez sobre as botas em pleno verão e o sorvete de chocolate derretendo. Ele não queria lembrar das coisas boas que havia vivido com ela diante de tanta dor. Os momentos com Amanda eram para dia felizes, e não para dias como aquele.
Quando já era quase noite, finalmente teve coragem de se levantar. Pedro desceu as escadas, deu um beijo no lado esquerdo da face da mãe, e recusou o jantar que de longe exalava um cheiro maravilhoso. Foi caminhando até a sala, onde o pai assistia TV distraído. Doutor Carlos era advogado, e não sabia que Amanda havia se mudado. Na verdade não se lembrava, já que pensava em argumentos para o julgamento de seu cliente que estava marcado para o dia seguinte. Pedro sabia que o pai sempre estava lotado de trabalhos, mas precisava conversar. Precisava falar sobre Amanda. Mas desistiu, pois quando ia começar, Carlos levantou-se e foi para seu escritório.
Naquela hora Pedro viu como seria sua vida daquele dia em diante. Seriam dias sem botas em pleno verão e sorvetes de chocolate derretendo em mãos pequenas. Dias vazios.


Goste muito legal,um blog diferente dos outros.
ResponderExcluirObrigada Ligia <3
ExcluirCoitado do Pedro!!! </3
ResponderExcluir):
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