Você tem um minuto para responder uma pesquisa?

   
    Murilo estava sentado tomando sorvete enquanto escutava uma música qualquer. Ana Júlia estava no banco da frente, olhando o celular enquanto esperava sua mensagem enviar. Talvez, ambos estivessem sozinhos à meses. Talvez, ambos tivessem coisas em comum. Mas o amor não é tão simples como deveria ser. Infelizmente.
    Eu,  por golpe do destino, estava ali. Apoiada na banca de jornal, observando uma possível história. E se de repente, o celular dela caísse no chão e ele fosse ajudar a juntar os pedaços? E se, simplesmente, a bateria dele acabasse e ele precisasse fazer uma ligação? Ou então, e se eles só soubessem que aquele lugar, naquela hora, poderia mudar totalmente o caminho de ambos? Fiquei imaginando. Talvez as primaveras fossem mais felizes. Talvez. E se...
    Murilo terminou seu sorvete e se levantou para jogar a embalagem fora. Por golpe do destino, ele tinha de jogar ao lado do banco aonde Ana Júlia estava sentada. Mas esse fato, não adiantou nada. Era eu quem estava torcendo pela possível historia, eles ainda não sabiam o que estava acontecendo. Passei as mãos sobre meu rosto de tanta frustração e voltei a respirar quando vi um sorriso. Ela havia olhado pra ele, e havia sorrido porque se assustou com um homem se aproximando. Quando ele jogou a embalagem, e ela entendeu o motivo da aproximação, ficou com tanta vergonha que seu rosto corou.
    Murilo não havia visto o sorriso. Não sorriu de volta. Não viu as bochechas no tom avermelhado. Seus olhos estavam novamente fixados no celular. Ambos estavam com os olhos fixados no celular. E a bateria de nenhum dos dois havia acabado, o sinal estava ótimo, ninguém ria ou fazia qualquer barulho que pudesse chamar a atenção um do outro. Eu me segurei pra não andar até ali, conversar com ele por exatamente um minuto, e convencê-lo a conversar com a estranha a sua frente. Mas, apesar de ser romântica, sou extremamente tímida. Continuei na torcida por mais três minutos.
    Até que um velhinho surgiu junto com seu cachorro e passou por entre os dois bancos caminhando a passos lentos. Ele chegou na banca aonde eu estava, comprou um jornal, e falou comigo.
    - Você viu quem morreu?
    - Oi?
    - Aquela moça que vendia artesanato aqui na praça. Acabei de voltar do velório... Eu gostava muito dela.
    Eu não sabia de quem ele estava falando. E apesar de estar prestando atenção, e ter sentido certa dor na voz do velhinho, continuei a observar Murilo e Ana.
    - Ela era muito nova, só tinha 47! Era tão bonita...
    - Ela era solteira?
    - Sim. Mas o que isso tem a ver menina?
    - Você contou pra ela?
    - O que?
    - Que a achava bonita, e que gostava muito dela.
    - Não.
    Ficamos em silêncio.
    - Por quê? Você não é tão velho assim, poderia ter tido uma ótima história de amor com ela.
     Ele riu. E eu torci para que não tivesse ficado com raiva.
    - Não sei.
    - Quer me ajudar com uma coisa?
    Ele concordou, e então eu contei o plano. Pedi ao jornaleiro, que também havia concordado em ajudar, sua prancheta emprestada. Coloquei um pedaço de papel qualquer ali, e fui caminhando até Murilo. O velinho, que se chamava André, me acompanhou junto com seu cachorro.
    - Oi, tudo bem? Estamos fazendo uma pesquisa, você tem um minuto?
    Murilo tirou os fones de ouvido, e concordou. André fez a mesma pergunta para Ana Julia, e pedimos para que os dois se aproximassem e respondessem juntos para ser mais rápido. Claro que o motivo não era a rapidez. Mas isso realmente importava? Não.
    - Antes de tudo: Nomes?
    - Clara.
    - Eduardo.
    Merda, eu jurava que era Ana e Murilo.
    - Estado civil?
    - Solteira.
    - Chutado.
    Clara riu.
    Eu ri.
    Todos riram. A risada dela era engraçada demais.
    - Qual é a coisa mais importante do mundo para vocês?
    - Não tenho a minima ideia.
    - Encontrar o melhor sorvete de limão da história.
    André riu e comentou que o melhor sorvete de limão, era na verdade, a raspadinha de limão. Eduardo arregalou os olhos surpresos, ele nunca havia pensado nisso.
    Clara estava olhando para Eduardo. E eu amei estar de observadora novamente. Sai do transe de cinco segundos e voltei para o planeta Terra.
    - Se eu oferecesse vinte reais para cada um, o que vocês fariam se tivesse que comprar algo juntos?
     Clara franziu o cenho pensando.
    - Que tal comer um lanche no Mc Donald's?
    Foi Eduardo quem sugeriu, e eu senti que aquele momento era crucial. Clara riu.
    - Porquê não?
    - Bom, infelizmente não tenho quarenta reais para fazer uma doação.
    - Eu tenho! - André disse tão animado que sua voz saiu como se fosse um grito.
    - Vamos então? - Clara perguntou.

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